
Contar é muito dificultoso. Não pelos anos que se passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas, de se remexerem dos lugares. A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos [...] contar seguido, alinhado só coisa de rara importância. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras de recente data[...] Talves, então, a melhor coisa não é contar as coisas como um filme, na ordem certa, tendo começo meio e fim, mas como um álbum de retratos, cada um completo à si mesmo, contendo o sentido inteiro. Talvez seja esse o jeito de de escrever sobre a alma em cuja memória se encontram as coisas eternas, que permanecem...
Trecho- (Guimarães Rosa.Apud Rubem Alves. Na morada das
Palavras. Campinas Papirus,2003. P 139)
Achei tão interessante e tão bonito esse trecho, pois realmente contar é muito doloroso, pois traz as coisas passadas bem perto de nós, tão perto quanto às coisas de data recentes.
E essas coisas que passamos, essas pessoas que conhecemos que nos fazem ter essa lembrança, têm um cheiro. Quero dizer quantas vezes pegamos, ou cheiramos algo que tem um perfume que nos faz lembrar-se de algo, ou de alguém. Deve ser por isso que lembramos, porque tudo tem um cheiro tem um perfume. E deve ser por isso que é tão difícil de esquecermos as coisas. Do nada alguém ou algo passa e sentirmos o cheiro que nos faz lembrar alguém, ou de algum lugar que já passamos.
Às vezes queria ter a “Síndrome do Tom” daquele filme “Como se fosse a primeira vez” assim não teríamos o trabalho de esquecer, portanto nem lembraríamos de nenhum perfume.
Mas já em certo ponto, é bom termos lembranças, pois sabemos que elas não vão mudar, mesmo que as pessoas mudem, elas vão estar lá, do jeito como aconteceu, do jeitinho como eras as coisas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário